A Peça Estratégica

Centro Estratégico Ferroviário

A EMEF está de olhos postos no futuro e procura concretizar as linhas apontadas pelo plano estratégico, que assentam na captação de novos mercados e clientes, na especialização dos grupos oficinais, na inovação tecnológica e estabelecimento de parcerias. Entrevista ao Eng. Carlos Frazão, presidente da Comissão Executiva da EMEF, onde também é abordada a aquisição de parte significativa das instalações da Bombardier na Amadora.

A EMEF apresentou no ano passado um plano estratégico. Quais as principais linhas que estão a ser seguidas?

Convém começar por recordar como surgiu a EMEF, que nasce da antiga Direcção Industrial da CP. Entendeu a Administração da época que esta tinha capacidades excessivas em relação às necessidades, isto é, não só tinha um quadro de pessoal, como instalações e equipamentos que eram superiores às necessidades da CP. Portanto, em vez de entrar num processo de redução de capacidade, preferiu tentar saltar para o exterior de forma a potenciar esse excesso de capacidade, angariando para a EMEF outros clientes que não a CP, para a qual se trabalhava, até então, a cem por cento.
Isto foi em 1991. Em 16 anos, a CP manteve-se como cliente principal e accionista único. Por determinados períodos, a situação económica tem sido difícil por razões de vária ordem, designadamente pela natureza do mercado em que se insere.
Esta Comissão Executiva tem estado a trabalhar no sentido de “dar o salto” e conquistar novos clientes para além da CP. O mercado não é fácil sobretudo na Europa e, em boa altura, conseguiram-se encontrar algumas oportunidades em África e na América Latina.

EMEF_Carlos FrazãoPodemos falar, desde já, do negócio da reabilitação de material circu­lante para a Argentina…

A Argentina já teve uma das maiores redes ferroviárias do mundo, com enormes volumes de carga e passageiros. Sucede que, devido a conflitos sociais e económicos, o material circulante foi-se desgastando, mas como tinham um parque enorme, isso permitiu-lhes sobreviver muito tempo através da “canibalização”. Inclusivamente, um dos governos argentinos pretendeu, em certa altura, acabar com a rede ferroviária.
Mas, agora, voltaram a apostar na reactivação do caminho-de-ferro. Como não têm capacidade financeira para adquirir material circulante novo, é aí que nós entramos. O material circulante que, para nós, dados os parâmetros, regras e níveis de exigência que as normas europeias impõem, já é desadequado, está a ser preparado, reparado e vendido à Argentina. É um bom negócio, porque o material tem a qualidade suficiente para eles ganharem o músculo financeiro necessário para no futuro comprarem material novo.
Em resumo, o negócio com a Argentina consiste na venda de material circulante, automotoras e carruagens. A CP vende o seu material e integrou no contrato de venda a participação da EMEF na recuperação. Ainda falta a terceira tranche de reabilitação de material, num negócio interessante para ambas as partes.
Além disso, a venda de material para a Argentina permitiu-nos dar o salto para fora. Com este “cartão de visita” na América Latina, Uruguai, Bolívia ou Peru são países onde podemos agora analisar outras oportunidades de negócio.

Na Argentina, o negócio esgota-se com a entrega do material?

Estamos muito atentos ao mercado. Vamos manter os contactos com as empresas que nos compraram o material circulante e oferecer a nossa assistência técnica para esse material.

… está também a fabricar vagões para a Bósnia?

Sim, surgiu entretanto outro negócio, que poderia ser comercialmente mais positivo, para construção de vagões para a Bósnia. Esse contrato foi feito num contexto muito particular, através da abertura pelo governo português de uma linha de crédito. O que é certo é que a EMEF está a fazer fabricação, algo que nunca tinha feito.
Comercialmente o negócio poderia ser mais benéfico, mas este contrato tem uma grande virtude: aprendemos a fabricar e hoje temos a noção das necessidades de uma linha de fabricação de vagões, fazemos o bastidor, a caixa, se for o caso, as plataformas, montamos os bogies. Isto tudo está a ser feito na EMEF, no Entroncamento. Os vagões que fabricamos são certificados, o produto é muito bom, de tal forma que, agora, temos a ambição de concorrer a concursos de fornecimento de vagões em outros países, nomeadamente no leste europeu. Estamos a analisar um concurso na Sérvia, que representa um grande desafio porque o volume da encomenda e o ritmo das entregas exigido é superior às nossas capacidades.

Para além dessa internacionalização da actividade, a EMEF está também a apostar no estabelecimento de parcerias com os principais fabricantes?

Para falar num caso concreto, a CP comprou à SIEMENS vinto e cinco locomotivas eléctricas para comboios de mercadorias. Dessas 25, as três primeiras vão ser construídas na Alemanha, onde vai estar presente pessoal da EMEF em formação, as outras 22 serão montadas no Entroncamento, com super­visão da SIEMENS e mão-de-obra da EMEF.
Ao mesmo tempo que aprendemos, ficamos em condições para, depois de os alemães terminarem a sua tarefa, podermos assegurar à CP uma garantia de operacionalidade do equipamento.
Esta tem sido a nossa estratégia, não só em relação a estas locomotivas da SIEMENS mas também, por exemplo, aos Tram Train da Bombardier que o Metro do Porto vai comprar. Já existe um compromisso nosso para fazer a manutenção, temos pessoal a acompanhar a montagem dos primeiros veículos, para depois ficar apto a manter a frota ao longo da sua vida.

Existe capacidade de resposta para todos esses projectos?

Temos capacidade de produção no Barreiro e noutras instalações que, caso surja uma encomenda que nos permita tempo de preparação, podem ser aproveitadas para o fabrico, por exemplo, a Figueira da Foz. Além disso, os antigos terrenos da Bombardier na Amadora, também nos permitem instalar capacidade no domínio do fabrico.

Falando da Amadora, que utilização vai ser dada às instalações?

Assinámos em 25 de Maio deste ano com a Bombardier Transportation, o contrato de compra de seis hectares das antigas instalações encerradas há três anos, na Venda Nova, Amadora, por cerca de 6,5 milhões de euros.
Esta aquisição vai permitir à EMEF instalar o Centro Tecnológico Ferroviário, que se constituirá como um pólo de competência, inovação e desenvolvimento capaz de se afirmar, apoiando-se no conhecimento de que dispomos nesta área industrial e oficinal, introduzindo as mais modernas tecnologias aplicadas ao material circulante ferroviário.
Aqui ficarão instalados os Serviços Centrais da EMEF, actualmente localizados num edifício alugado em Lisboa, no Conde de Redondo.
No domínio da inovação tecnológica, já temos alguns projectos muito interessantes em curso, desenvolvidos por técnicos nossos. A título de exemplo posso referir dois: o Sistema de Diagnóstico de Avarias – SDAI, em que contamos com o apoio da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e o Portal Técnico da EMEF.
O espaço na Amadora é excessivo para as nossas necessidades, mas a própria CP pode aproveitar algumas das áreas. Somos inquilinos da CP em todas as nossas instalações e na Amadora, pela primeira vez, a EMEF terá património próprio, adquirido a um preço muito favorável.
O espaço em causa tem uma localização privilegiada, na proximidade da estação da CP da Reboleira, prevendo-se que o Metro de Lisboa, na extensão da Falagueira, passe por ali, e ainda ficamos com uma área disponível com enormes potencialidades.

De acordo com o plano estratégico, os grupos oficinais serão transformados em centros de inovação ferroviária. O que significa isto?

Significa que concentrarão funcionalidades específicas, valorizando aspectos de escala e de valor acrescentado. Por exemplo, soluções de bogies e rodados no Entroncamento, electrónica na Amadora, Tram Trains em Guifões e desenvolvimento de competências ligadas à alta velocidade no conjunto Barreiro/Poceirão. A especialização é de facto a filosofia que seguimos. Todos concordam que é necessária uma mudança.

Quanto à Alta Velocidade, de que forma a EMEF se posiciona nesse projecto?

Estamos atentos. A CP ainda não sabe se vai concorrer, muitas coisas ainda estão por definir, não sabemos que consórcios se vão formar… Uma coisa é, mais ou menos certa, se a CP tiver oportunidade de concorrer sozinha ou em consórcio, a EMEF lá estará.

Em termos de pessoas, estão previstas algumas mudanças?

Eu defendo uma maior rotatividade. As pessoas não se devem acomodar durante muito tempo ao mesmo sítio, é prejudicial para elas, mas nem todos recebem bem esta ideia. Não estão em causa as suas competências, mas quando sugerimos mudanças, têm tendência a ver isso como uma crítica e não como uma injecção de vitalidade.
Nesse sentido, tenho intenção de propor algumas alterações. O quadro de pessoal não está sobredimensionado, mas é necessário um ajustamento. Para além disso, falta à EMEF a costela comercial, saber ir ao mercado para vender os serviços e os produtos, prestar serviço um pós-venda, tratar os clientes como clientes.
Isto requer imaginação e esforço. O factor comercial tem de antever, ir à procura, e, é necessário criar na EMEF uma especial apetência para esta postura.

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